Sinto que se foi um amigo…

Em plena adolescência, entraste em minha casa, juntamente com os teus amigos, com um som que, para mim, era diferente, irreverente. Passei a ouvir o que vocês tinham criado uma e outra vez sem parar. A relação entre mim e a vossa música passou a ser quase patológica. Ouvia-vos sem pausas. Sem interlúdios.

Em casa, os meus pais perceberam a admiração e um dia, como quase nunca tinha acontecido, cheguei ao meu quarto e lá estava o “Cão!” à minha espera. Foram durante dias, meses, anos, a minha banda sonora. Nunca fui de rótulos, mas se me perguntarem qual é a minha banda favorita, respondo sem dúvidas, sem equações. São vocês, os Ornatos Violeta.

Cresci convosco. Eu e alguns dos meus melhores amigos. Invocámos as vossas letras em diversas ocasiões. Em especial, do primeiro álbum. Débil Mental fez-nos desafiar as regras porque: “se não te agrada a forma de eu falar, acorda e vê que eu cago pró teu não gostar.”

Conseguiste, juntamente com a tua trupe, transformar-me numa espécie de groupie. Houve noites dormidas no jardim para vos ver. Viagens à boleia. Logo eu, tão certinho e que procura seguir tudo segundo os livros.

Vi-te, a ti e ao resto da rapaziada, em novembro, em Aveiro. Pareceste-me distante, à parte dos outros. Não questionei. Não falei, sequer, contigo. Mas a imagem ficou. Procurei relativizar.

Tocaram, recentemente, no Porto. Não pude estar. Lamento. Muito.

Li nas notícias que nos deixaste. Sinto que perdi um amigo. Daqueles que está sempre connosco. Já foste. É sempre cedo. E agora? Descansa. Espera por nós, Elísio.

“Tudo tem um fim, 
E aqui não há, 
Ninguém que possa ter o mundo, 
Para dar.”

Mata-me Outra Vez, Cão

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