Lembras-te?

Trabalhadora, regrada, tenaz. Sempre olhei para ti e vi-te como alguém que diria boa tarde no final da madrugada, já as horas de trabalho iam longas.

Não te acompanhei nos tempos da cozinha de restaurante, como no Estrela, mas sentia essa produtividade que fervilhava naquela cozinha minúscula, com um pequeno fogão e uma simples bancada de mármore.

As azevias, as filhós e os maravilhosos – os únicos de que gostei até idade adulta – bolos-rei pelo Natal. Os pastéis de carne que preenchiam o farnel em excursões ou idas ao alergologista. Um apetitoso cabaz que os portalegrenses podiam provar em casas com nome na cidade.

Era assim que te via…

E lembras-te da luz azul, que fazia de presença, quando me davas guarida naquele quarto exíguo, mas confortável, quarto interior?

E aquele serviço de chá em miniatura que decorava uma estante da sala e servia de adereços a tantas brincadeiras e fantasias? E a telefonia antiga que me fazia viajar para um tempo que nunca fora o meu?

E lembras-te dos piqueniques que fazias com o avó e a vossa grupeta debaixo dos chaparros do Sever, junto à piscina? E eu aparecia, de bicicleta, de moto, mais para te pedir um petisco do que para dar um mergulho?

E lembras-te dos dias que passávamos em família, na barragem, a aproveitar o ar puro, a sentir a água refrescante e a confraternizar?

E lembras-te quando te pedia almoço e me perguntavas o que queria e eu escolhia bife com batatas fritas e tu não fazias um, nem dois. E apresentavas uma frigideira com cinco? E perguntavas se eu não ficava com fome depois de fechar os talheres quando terminava o segundo?

E lembras-te das tardes infinitas, quando a sombra já cobria o quintal, em que me deixavas à vontade para brincar com a água do tanque, ou com os martelos e pregos do avô que eu não me cansava de espetar e tirar de umas tábuas velhas que lá estavam, sabe-se lá bem para quê?

E lembras-te do ritual do Sr. dos Aflitos, em que entre peregrinos e tradições religiosas, comandavas a cozinha e davas de comer a um verdadeiro batalhão envolvido na organização? E tinhas sempre mais qualquer coisa para o neto que por lá aparecia, mais pela religiosidade das tuas receitas e da tua mão, do que pela das festividade e das cerimónias?

E lembras-te do ar consolado, feliz, satisfeito que mostravas quando íamos almoçar? E havia cachola. E havia leitão. E havia rins. E havia só coisas que, dizem, fazem mal, mas sabem tão bem. E embrulhávamos as sobras porque ainda acabavam em petisco e não havia desperdício.

E lembras-te desse mau feitio que te fazia dizer que só estorvavas e eu insistia que já estavas a entrar nos disparates?

E lembras-te de me deixares brincar, sem medos, sem receios, na calçada inclinada da travessa, mesmo sabendo que ali passavam carros?

Não sei se te lembras. Mas levas isso contigo. E eu guardo essas memórias comigo. As vivências, as histórias que sempre partilhaste (como a do Mourinho, a quem deste de comer, para crescer). As viagens de comboio a Abrantes. A forma firme como comandavas a casa. Essa faceta, nunca a perdeste, nem no fim. Terias controlado tudo, se pudesses. Para o bem e para o mal. E eu sempre gostei de ti… muito!

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