Dá-me a tua mão*…

26 de agosto de 2023.

Não acredito na ressurreição. Não vejo forma de, quando o coração deixar de ditar o seu ritmo, voltar a fazê-lo. Pelo menos, com a força suficiente para vibrar. Para colocar todos os outros órgãos em funcionamento. Para viver. Outra vez.

Sem que o seu coração tenha ressuscitado, o Elísio voltou desse outro lado que não conhecemos. Que não sabemos se existe.

Caminha fica a meia dúzia de quilómetros. Talvez um pouco mais. Pouco, mas mais. Agosto é sereno. Mas, nem os prédios nos protegem desse vento que sopra do Atlântico. Enlatamos que nem sardinhas num autocarro fretado para levar os peregrinos para o festival, aquele que se apresenta como o mais velho, o ancião das reuniões roqueiras em Portugal.

Vilar de Mouros espera-nos. A viagem foi curta. Confirma-se que a distância de Caminha não é grande. Há filas. Há espera. Não há confusão. Há respeito. Há civismo. Cheira a erva queimada em papel de arroz. É intenso.

O sol ainda não se pôs. Mas as temperaturas estão baixas. Baixas para quem chega de outras latitudes. Foi preciso ir ao baú ver de algodão mais aconchegante. Mas não cheira a naftalina. O cheiro, esse, é, como disse, outro…

O ambiente é calmo. Está tudo tranquilo, mesmo se os acordes projectados do palco principal se dispersam com uma aspereza muito roqueira. Há mais gente do que em 2022. Muito mais. É preciso fazer escolhas porque o tempo já não permite fazer tudo: comer, beber e arranjar um local que nos agrade para assistir aos concertos. Das escolhas que tinham de ser feitas, optámos pela cerveja e pelo lugar mais perto do palco. Valha-nos umas batatas fritas compradas no supermercado improvisado junto à entrada do recinto.

Os alemães Guano Apes, aqueles que nos fizeram voltar à juventude do final do Secundário e do início do Superior, tinham regressado aos camarins e deram lugar aos James. Do Reino Unido, escrevem, tocam e cantam desde os anos 80 do século passado. Somos contemporâneos. Mas não foi este fenómeno de popularidade que nos fizeram quase cruzar a fronteira a norte, tão próximo que Vilar de Mouros está de Espanha. Pelo menos a mim, lamento, não foram.

O ansiado momento chegava. Voltava a ter à minha frente aqueles que idolatro, há muito. Começou com aquele CD com capa vermelha e uma ilustração de um cão cornudo a apertar o pescoço a uma mulher que gritava um vigoroso “CÃO!”.

Pela primeira vez, tinha a banda em palco, à minha frente, sem a formação original. Elísio Donas, que já partiu, cedeu as teclas a Miguel Ferreira, dos Clã, e a um outro teclista.

A noite minhota estava fria. Nós, aquela audiência vibrante, combatia as temperaturas baixas em reunião e com as ondas projectadas das colunas que ladeavam o palco.

Manel, Peixe, Nuno, Kinörm e companhia tocavam, cantavam, sorriam e vibravam, felizes. Fazem aquilo que gostam. E fazem-no tão bem.

A sua discografia é curta. Têm dois álbuns completos editados e mais umas quantas canções em coletâneas. Em Vilar de Mouros, tivemos direito a muito. Entre “Cão!” e “O Monstro Precisa de Amigos”, os nossos ouvidos e almas encheram-se de poesia e melodia. Começámos no “Monstro”. A oitava canção levou-nos ao “Cão!”. Da plateia soavam coros mais vivos quando o bando entrava em modo “Monstro”. A minha garganta ficou exausta e descansou, quase no fim. No encore, viajámos até à Expo 98 e a Tejo Beat, projecto musical idealizado por Henrique Amaro, no qual os Ornatos Violeta tocaram “Tempo de Nascer”. “Devagar, que seria incluída num terceiro disco, nunca foi editada. Mas nos últimos concertos que assisti, foi a escolhida para as despedidas. Em Vilar de Mouros, não foi excepção.

O Elísio não esteve em palco com os seus amigos. Mas, naquela noite fria de Agosto, deu-se, nem que por breves momentos, o milagre da ressurreição…

*E vamos ser alguém
A tua vida é feita para nós!
“O.M.E.M” in O Monstro Precisa de Amigos

P.S. – Um agradecimento ao Ricardo Oliveira que registou o momento e, pela sua amizade, me permitiu ilustrar este meu relato com fotografias.

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