Este som azul

O perfume dos campos de algodão, a aspereza das mãos de trabalho… pobres, humanos de primeira, humanos de segunda. Tudo isto na terra das liberdades, do sonho. Nasceu aí, junto ao rio, um estilo, uma forma de fazer música. Em inglês deram-lhe o nome de blues. No plural.

Somos de criar tabelas, determinar classificações ou, se preferirmos termos importados, definir rankings. Na minha competição, coloco este género colorido no topo das minhas preferências. A par com outros, mas lá em cima. Acontece há muito. Posso recorrer ao lugar-comum: “desde pequenino.”

É a guitarra que me fascina, que me aprisiona ao som que de lá é extraído. Nesta noite, o blues veio à terra. Fui matar saudades de sentir o pulso do estilo ao vivo e a cores, mesmo que seja só azul. O Horned Snake Blues Fest regressou à cidade e eu reencontrei-me com o blues em cima do palco. O blues, claro.

Peter Storm & The Blues Society acordaram a noite pouco fria de março. Soltaram os dedilhados, os solos, a cumplicidade entre baixo, guitarras, bateria, harmónica e voz. Fizeram-no do palco para a plateia, sempre concentrados e divertidos com a música e empenhados em dar ao blues o poder de cortar a distância entre músicos e público.

No café-concerto, com as gentes mais perto e de copo na mão, os Double Shot Blues herdaram o legado dos parceiros de palco. A evangelização continuou. Sempre com blues. Mas também com variantes, como o rockabilly.

Eu viajei. A viagem foi longa. Terá percorrido cerca de 30 anos, em breves segundos e acordes. De repente, estava a ver, pela primeira vez, um dos filmes da minha vida, A Encruzilhada (Crossroads). Lá estava, de novo, a guitarra. Aquele som. A inspiração.

Nunca resultou no toque do braço da guitarra. Não, pelo menos, como gostaria, sonharia. Mas, nesta noite, a viagem foi, também, especial. Porque revi esse filme que tem quase a minha idade. Porque revivi momentos blues, como aquele em que, de pijama, ainda sem reivindicar um lugar na adolescência, internado no hospital a recuperar de uma maleita, ocupava o tempo a dedilhar aquela Lucille imaginária pelos corredores, naquilo a que se viria a chamar, em bom inglês, de air guitar.

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