Não conheço bem a Marisa e o Francesco. Sei que ela e ele abrem as portas, quase todos os dias da semana, de Tua Madre, um pequeno restaurante numa das ruas mais peculiares de Évora, em pleno centro histórico, a meia dúzia de passos da Praça do Geraldo.
Comecei a segui-los faz tempo. Cheguei, inclusivamente, a meter-me com eles a propósito de uma bruschetta que eu prefiro chamar de tiborna. A conversa não durou mais do que três ou quatro mensagens e já lá vai mais de um ano. Escrita e línguas à parte, o apetite aguçava-se sempre que via as tentadoras fotografias das mais diversas propostas gastronómicas do casal na conta do Tua Madre, no Instagram.
A filosofia da dupla naquele cubículo que não tem espaço para mais do que 12 ou 14 comensais é simples e vencedora: servir produtos locais, sazonais e cheios de sabor através de técnicas culinárias em que o Francesco procura o melhor de dois mundos, aquele onde cresceu, Itália, e aquele onde vive, Portugal.
Passaram-se dias, semanas, meses. Tantas vezes me via em Évora, sempre à hora errada. Caramba, porque tinham de folgar no dia em que eu tropeçava nas pedras ali colocadas por romanos, mouros, visigodos, judeus e cristãos ?
O dia chegou. O sol brilhava e convidava a uma viagem rápida a Évora. Reserva feita. Ali chegados, somos recebidos com simpatia. Lanço a conversa da bruschetta e da tiborna para quebrar o gelo. Missão cumprida. À mesa, leio a carta e visualizo mentalmente aqueles pratos que me tentaram nas redes sociais. A lista de vinhos realça rótulos diferentes, menos comuns. “Isto vai ser interessante”, penso.
A Marisa, que comanda a sala, dá dicas, apresenta sugestões. O Francesco, com a ajuda de mais um elemento, aumenta o frenesim na cozinha compacta. E nós escolhemos.
Ir à Tua Madre é um ato de generosidade, de partilha. Do Francesco e da Marisa. De quem os visita. Deixámo-nos ir pelo espírito. Começámos por partilhar pão de fermentação natural, focaccia (ou pão de azeite), azeite de azeitonas galegas e manteiga batida. Seguiu-se brioche de porchetta (o tal que provocou o confronto linguístico), couve-flor assada e frutos secos e, para terminar o festim dos principais, agnolotti de cozido com morchella conica e leite de cabra. Que deleite. Que surpresa.
A minha avó materna sempre disse que só comia para sobreviver, porque tinha de ser. Não podíamos estar mais em desacordo. A Marisa e o Francesco reforçam a minha convicção. Comer não é só o ato de nos alimentarmos para sobrevivermos. É viver. É sentir. É vibrar. No Tua Madre vivemos, sentimos e vibrámos até ao momento em que engolimos o último pedaço da rabanada de padinha e que nos fez estremecer.
Não perguntei ao Francesco e à Marisa qual a razão do nome do restaurante. Mas quero acreditar que, de certa forma, a comida ali feita é, talvez, em nome da mãe. Se o for, então está tudo explicado.