Em meados de agosto está calor em Portugal. Recordo-me que, em criança, era habitual, ao fim da tarde, soarem potentes trovões acompanhados pela chuva, daquela em que as pingas são tão grossas que repassam a camisola que nos cobria o tronco. Continuávamos a jogar à bola até que um adulto, da varanda ou da porta de casa, nos chamasse.
Nunca tive medo de trovoadas. Nesses dias, com o calor do sol que nos queima as costas e o do chão que nos corta a respiração, gostava de sentir o cheiro a terra quente e molhada.
Em meados de agosto de 2020, as temperaturas mantiveram-se altas. Não tanto como em anos anteriores. Não tanto como nos primeiros dias do mês. Mesmo assim, andavam acima dos 30 graus centígrados.
O ambiente convidava e saímos com a casa às costas. Adeptos do campismo, a experiência foi diferente. Ao contrário de uma tenda, daquelas que nos forçam a um contacto mais próximo do chão, tínhamos, durante um fim-de-semana, uma autocaravana à disposição.
A saída foi atrasada em cerca de duas horas. Os dias ainda longos davam margem para que, ao volante desta casa, percorressemos quilómetros e não tivessemos de parar para jantar e pernoitar nos arredores da cidade.
As paredes de uma autocaravana são mais consistentes do que as de uma tenda. O isolamento para o exterior é mais evidente. A parafernália de equipamento torna a nossa vida mais civilizada. Mas não menos livre. Sentimos-nos em casa. Aconchegados. Com paredes mais firmes. Somos nómadas com um fogão, camas e casa-de-banho.
Com a autocaravana, não temos de correr. Não é preciso acelerar para cumprir horas de chegada, de entrada em qualquer parque. A berma da estrada pode transformar-se numa unidade de alojamento inusitada mas útil. Nem que seja só por uma noite.
Viajar com a casa às costas dá-nos essa liberdade de furar os planos. De não marcar. De não ter compromissos. Porque não temos de o fazer. Só temos de guiar e parar. Praticamente em qualquer lado. Onde quisermos.
O plano do era chegar o mais longe possível naquele primeiro dia. Se pudéssemos chegar ao Pinhal Interior, seria perfeito. Mas aquelas horas de atraso hipotecaram os planos. Foi assim que vimos um por-do-sol maravilhoso a descer, rumo ao Tejo, e um lusco-fusco de fazer parar o tempo, nas Portas de Ródão.
A falta de luz levou-nos a parar. Estávamos a cerca de 40 quilómetros de distância do destino planeado. Com um caracol, isso significava que, se continuássemos, parte do serão seria na estrada e, afinal, aquele era um fim-de-semana para aproveitarmos e não para passarmos horas e horas sobre tapetes negros. Foi romântico jantar e dormir à beira do rio Tejo.
A carne grelhada com batatas fritas dos práticos pacotes e uma salada. Um passeio com a água do Tejo aos nossos pés. Sentimos-nos confortados. Nem precisávamos do ar frio que chegou e nos empurrou para dentro do saco-cama.
As paredes não são espessas. Não são eficazes a protegerem-nos nos barulhos exteriores. Mas a noite foi maravilhosa e dormimos um sono que atingiu, com certeza, as profundezas do Tejo.
A viagem continua…
(Este é o texto inaugural de uma série que escrevo sobre a primeira experiência numa auto-caravana.)
Segundo artigo – Acorda (A casa às costas – parte 2)