Este texto começou a ganhar vida há, mais ou menos, um ano. Almoço em casa do Filipe. Churrasco. Mesa posta. Miúdos felizes, a brincar.
– “Vou tirar a carta de moto. Não queres tirar, também?” A afirmação seguida de interrogação tinha mais argumentos. “Falei com o Morgado que também quer tirar. E o Miguel”, concretizou o Filipe.
A ideia era interessante. “Sim, também quero tirar a carta”, afirmei com assertividade.
Olho para o meu lado direito. A Cristina fita-me de forma directa e profunda. O olhar não é de condenação, mas de preocupação. Há um contexto. A minha relação com as duas rodas já teve momentos difíceis, com prejuízo para mim.
Mas a decisão estava tomada. Cumprida a burocracia, realizei o exame teórico, tive aulas práticas e fui posto à prova, com a moto, a chover. O título foi passado de imediato e a máquina já me esperava. Fui buscá-la, encartado. Dias depois, este texto começa a ganhar contornos mais vincados.
Eu já tinha moto, o Filipe também e o Morgado andava em negociações. Entretanto, passámos a viver numa realidade diferente, fruto de uma pandemia. Mas a ideia consolidou-se.
Somos amigos desde há mais de 20 anos. A minha mãe disse-me que a vontade de “tirar” a carta surgiu porque estamos a viver uma “crise dos quarenta” antecipada. Mas não é bem isso. Somos elementos de um núcleo duro de amigos que já viveu tanta coisa em conjunto. A amizade é isso mesmo. É partilhar, é viver momentos e experiências. E querer continuar a fazê-lo. Daí ao projecto da primeira viagem de moto foi tudo muito natural.
Com a distância a separar-nos fisicamente, passámos a comunicar por mensagens, num grupo que temos. O recurso a ferramentas tecnológicas ajudou e o esboço está feito. A fotografia ilustra esse rascunho, mas não é mais do que isso. É um desenho tosco para fotografarmos mentalmente o plano que não tem planos. Há três hipóteses. Todas elas são passíveis de serem concretizadas. Mas essa decisão será tomada pouco antes da hora.
Continua…